Você aceitaria um sangramento espontâneo nos olhos ou nos ouvidos apenas porque ele não dói? Provavelmente não. No entanto, no consultório, observo uma tolerância alarmante dos pacientes com o sangramento gengival durante a escovação ou o uso do fio dental. Existe uma percepção equivocada de que a ausência de dor sinaliza a ausência de gravidade. Na periodontia, o silêncio é, na verdade, o maior indicativo de um processo destrutivo em curso. O sangramento é a resposta inflamatória primária à presença do biofilme bacteriano — a placa — que se instala na margem gengival. Quando não removida mecanicamente de forma eficaz, essa comunidade bacteriana evolui de uma flora gram-positiva aeróbica para um ecossistema muito mais agressivo, composto por bactérias gram-negativas anaeróbicas, como a Porphyromonas gingivalis. É aqui que a gengivite, uma inflamação reversível do tecido mole, pode cruzar a linha para a periodontite. Diferente da gengivite, a periodontite ataca as estruturas de suporte: o ligamento periodontal e o osso alveolar. O grande perigo reside no fato de que essa transição é frequentemente indolor. O paciente nota o sangue na pia, talvez um leve edema ou halitose, mas como consegue mastigar sem desconforto, adia a consulta. Enquanto isso, o sistema imunológico, em uma tentativa desesperada de combater a invasão bacteriana, libera citocinas inflamatórias que acabam degradando o próprio osso que sustenta os dentes. Para ilustrar a gravidade clínica, imagine o caso de um paciente que acompanhei recentemente. Homem, 45 anos, sem queixas de dor, mas relatando “gengiva frouxa”. Ao realizar o exame de sondagem periodontal — que é a medição do espaço entre o dente e a gengiva — detectamos bolsas de 6 e 7 milímetros. O dente parecia íntegro na superfície, sem cáries, mas a fundação estava colapsando. O uso de exames de imagem, como a tomografia computadorizada de feixe cônico (CBCT), revelou uma perda óssea vertical severa que a radiografia convencional mal conseguia detalhar. Nesse estágio, a odontologia restauradora ou estética, como a instalação de facetas ou lentes de contato dental, torna-se secundária. Não se constrói um palácio sobre um pântano. O foco precisa ser a raspagem e o alisamento radicular, muitas vezes auxiliados por tecnologias como o ultrassom piezoelétrico e, em casos específicos, a odontologia digital para o planejamento de enxertos ósseos ou regeneração tecidual guiada. Além do risco de perda dentária, a literatura científica é robusta ao correlacionar a saúde periodontal com a saúde sistêmica. As bactérias da boca não ficam restritas à cavidade oral; elas podem entrar na corrente sanguínea (bacteremia), exacerbando condições como: Diabetes Mellitus: A inflamação gengival dificulta o controle glicêmico, criando um ciclo vicioso. Doenças Cardiovasculares: Marcadores inflamatórios como a Proteína C-Reativa (PCR) elevam-se em pacientes com periodontite, aumentando o risco de aterosclerose. Complicações Gestacionais: Há evidências de que a periodontite não tratada pode estar ligada a partos prematuros e baixo peso ao nascer. A prevenção eficiente vai muito além da técnica de Bass modificada na escovação. Envolve o gerenciamento do microbioma oral. O uso do fio dental não é opcional; é a única ferramenta capaz de desorganizar o biofilme nas áreas interproximais, onde a escova não alcança e onde a maioria das doenças periodontais começa.
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